Enquanto a inteligência artificial ganha manchetes e os algoritmos moldam cada vez mais as nossas decisões, há quem esteja trilhando um caminho na contramão dessa automatização massiva. Foi com esse espírito que milhares de pessoas se reuniram no coração de São Paulo para participar da CryptoRave, um dos maiores eventos globais dedicados à privacidade, segurança digital e liberdade na rede. O palco? A icônica Biblioteca Mário de Andrade.
Entre oficinas, debates e trocas intensas de experiências, o evento escancarou o que muitas vezes passa despercebido no frenesi tecnológico atual: há uma luta silenciosa — mas poderosa — acontecendo nos bastidores da digitalização. E ela se chama resistência digital.
O QUE SIGNIFICA RESISTIR DIGITALMENTE EM UM MUNDO PLATAFORMIZADO?
Você já parou para se perguntar quem realmente controla a internet? Ou qual o custo humano e ambiental dos dados que circulam todos os dias? Para Sophie Toupin, pesquisadora da Universidade Laval (Canadá), a resistência digital é, antes de tudo, um chamado ético e político.
Em seu workshop no evento, Sophie abordou práticas que contestam o avanço desmedido do tecnofascismo, da plataformização da vida e da comercialização desenfreada do digital. “Estamos falando de uma oposição ativa ao uso militar e colonial de tecnologias, às condições degradantes de trabalho em data centers, e ao vigilantismo que transforma nossas atividades online em mercadoria”, explicou.
Ela cita ainda um exemplo tocante: “Pessoas de todo o mundo enviaram cartões aos palestinos, para que pudessem usar a internet em Gaza e contatar parentes, independentemente de onde estivessem. É uma iniciativa incrível, que começou fora de Gaza. Nós, ativistas, precisamos continuar pensando em formas originais de oferecer apoio”, disse à Agência Brasil.
E se você acha que o problema está longe, pense novamente. A pesquisadora alertou para o fenômeno do shadow banning, quando conteúdos — principalmente os que denunciam abusos — são silenciados nas redes sem aviso algum. “Sem esses jornalistas, acho que o mundo não saberia que esse genocídio está ocorrendo”, afirmou, em referência aos ataques em Gaza.
TECNOLOGIA A SERVIÇO DAS COMUNIDADES: O EXEMPLO QUILOMBOLA
No Brasil profundo, a resistência digital já virou prática cotidiana. No quilombo Kalunga, na Chapada dos Veadeiros (GO), a conexão à internet virou símbolo de autonomia. TC Silva, ativista do Movimento Negro Unificado e fundador da Casa de Cultura Tainã, compartilhou a jornada para levar conectividade a esse território ancestral.
Placas solares, uma antena de 13 metros de altura e muita insistência foram necessárias para estabelecer um data center autônomo. “Pode estar acessando a rede mundial, a internet, ou só circulando dentro dessa infraestrutura do território”, afirmou, representando a Rede Mocambos, que fomenta o acesso à tecnologia nas comunidades tradicionais.
No entanto, a burocracia segue sendo uma barreira. “Edital não desenvolve consciência”, criticou TC. Para ele, os mecanismos de financiamento tradicionais não alcançam projetos comunitários genuínos. “Só apoiam as coisas que nascem nos gabinetes”, disse com veemência.
TECNOLOGIA COMUNITÁRIA E O OLHAR FEMININO INDÍGENA
A indígena p’urhépecha Yunuen Torres Ascencio, do México, compartilhou uma visão complementar durante a mesa de abertura. Em Cherán, sua comunidade aboliu partidos políticos e governos tradicionais, apostando na autonomia popular e no protagonismo feminino.
“Deve-se pensar a tecnologia a partir do que pensa a comunidade”, declarou, reforçando a necessidade de romper com modelos centralizados de decisão, inclusive quando se fala em infraestrutura digital.

Foto: Cadu Pinotti/Agência Brasil
IA, MEDOS EXAGERADOS E REALIDADES ESCONDIDAS
Mas, afinal, estamos mesmo à beira de sermos substituídos por robôs? Para a cientista social e organizadora da CryptoRave Maraiza Adami, essa narrativa precisa ser questionada. Em sua fala, ela desconstruiu o discurso catastrofista que ronda a inteligência artificial.
“Há sentenças, nos últimos anos, de que as IAs vão dominar tudo, que não teremos mais empregos, que a IA vai produzir arte melhor que humanos… Mas será mesmo?”, provocou.
Segundo Maraiza, essas promessas grandiosas fazem parte da retórica do Vale do Silício, que vende a IA como solução milagrosa. “E a gente acha que isso não vai acontecer”, completou, apontando que ainda há muito a ser dito — e resistido — antes de uma substituição total das capacidades humanas.
RESISTIR É EXISTIR: O FUTURO DA INTERNET PASSA PELA COMUNIDADE
A CryptoRave 2025 mostrou, mais uma vez, que tecnologia e justiça social precisam andar lado a lado. Em um mundo onde as infraestruturas digitais moldam realidades, resistir é mais do que um ato político: é uma forma de existir com dignidade, autonomia e consciência crítica.
Enquanto os algoritmos avançam, comunidades tradicionais e ativistas seguem firmes em suas trilhas digitais próprias — provando que, sim, é possível reprogramar o futuro a partir das raízes.
Fonte: Agência Brasil