Quem diria que um antigo galpão na periferia do Distrito Federal se tornaria o palco de uma transformação? O produtor rural Cid Faria, de 61 anos, é hoje um símbolo do renascimento da cachaça artesanal. Depois de experiências frustradas com gado e piscicultura, ele descobriu sua verdadeira vocação ao resgatar uma paixão de infância: a cachaça.
Instalado na Fercal, região de raízes profundas e solo fértil, Cid decidiu plantar cana-de-açúcar e produzir cachaça prata, aquela que não passa por envelhecimento em barris de madeira — e, por isso, mantém o sabor autêntico da cana. Com apoio da esposa e dos filhos, criou uma microempresa familiar que cresceu de mil para 10 mil litros por ano em menos de uma década. Resultado? Uma trajetória premiada com 10 condecorações nacionais.
Mas Cid não é um caso isolado. Ele é parte de um movimento maior, que reflete o bom momento do setor no país.
PRODUÇÃO DE CACHAÇA DISPARA E CRESCE QUASE 30% EM UM ANO
O Anuário da Cachaça 2024, divulgado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), trouxe dados que fazem qualquer apaixonado por essa bebida nacional brindar com orgulho. Em um salto impressionante, o Brasil alcançou a marca de 292,459 milhões de litros produzidos, o que representa 29,58% de crescimento em relação a 2023.
Mais do que números, esse crescimento representa 7.223 produtos registrados, com um avanço de 20,4% em relação ao ano anterior. Todas as regiões do país sentiram o impacto positivo, com novos estabelecimentos surgindo de Norte a Sul.
Minas Gerais continua sendo o coração pulsante da cachaça brasileira, com 501 registros ativos, seguido por São Paulo (179), Espírito Santo (81) e Santa Catarina (73). Mas o destaque vai para o Ceará, que teve o crescimento mais expressivo em 2024: um salto de 34 para 47 estabelecimentos, aumento de 38,2%.
SIM, A CACHAÇA É NOSSA — MAS ELA AINDA NÃO É TRATADA COMO DEVERIA?
Se a produção cresce, por que o reconhecimento pleno ainda não veio? Essa é uma das perguntas que ecoaram durante o evento de lançamento do anuário. Segundo representantes do setor, a cachaça — bebida genuinamente brasileira — ainda carrega estigmas e enfrenta obstáculos que dificultam sua valorização.
“É um setor que gera hoje mais de 600 mil empregos, diretos e indiretos. São produtores espalhados de norte a sul do Brasil”, destacou Carlos Lima, presidente do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac).
E ele vai além: lembra que a produção é majoritariamente formada por micro e pequenas empresas, muitas das quais têm papel social importante ao manter famílias no campo, fortalecendo a economia local e preservando tradições.
CARGA TRIBUTÁRIA E PUBLICIDADE: DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS?
A realidade tributária da cachaça é outro ponto de tensão. Enquanto outras bebidas alcoólicas, como a cerveja, têm tratamento mais brando, a cachaça enfrenta alta carga de impostos e regras mais restritivas de publicidade.
“Todas as bebidas alcoólicas deveriam ter o mesmo tratamento”, argumenta Carlos Lima. E ele tem razão: não se trata apenas de justiça fiscal, mas de reconhecer que a cachaça é feita com matéria-prima 100% nacional, gerando riqueza no campo e carregando a identidade cultural do Brasil em cada gota.
Além disso, o setor lamenta que as barreiras regulatórias muitas vezes impeçam uma maior visibilidade do produto no mercado interno — o que afeta tanto os pequenos produtores quanto o consumo consciente e valorizado por parte da população.
UMA NOVA GERAÇÃO DE PRODUTORES E UM NOVO OLHAR SOBRE A CACHAÇA
Histórias como a de Cid Faria ilustram como a cachaça vai além de uma simples bebida. Ela é símbolo de resistência, tradição e reinvenção. De galpões simples a prateleiras de prêmios, ela tem conquistado território — dentro e fora do Brasil.
E você? Já experimentou uma cachaça artesanal de verdade? Já visitou um alambique local? Talvez esteja na hora de repensar o que você sabe — ou acha que sabe — sobre essa bebida tão brasileira.
Enquanto os números mostram um futuro promissor, os produtores ainda aguardam que a cachaça conquiste também o respeito que merece. O sabor já conquistou paladares. Falta agora vencer os preconceitos.
Fonte: Agência Brasil