Pode a arte despertar consciências em tempos de emergência climática? Para Zeca Baleiro, a resposta é sim. O cantor e compositor maranhense levou seus sucessos ao palco do 26º Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica 2025), mas foi fora dele que deixou algumas das declarações mais marcantes do evento.
Com o charme habitual e a lucidez de quem observa o mundo com profundidade, Zeca falou sobre o papel da cultura diante dos desafios ambientais, políticos e sociais que o Brasil enfrenta.
ARTE COMO CAMINHO PARA A CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA
Antes de encantar o público com seu show no Fica 2025, realizado na histórica Cidade de Goiás, Zeca Baleiro conversou com a imprensa e destacou a urgência de se discutir as questões ambientais de forma acessível — e, por que não, poética.
“As pessoas acham que são visões alarmistas, mas a gente sabe que tem cientistas estudando toda essa situação do mundo de hoje e sabe-se que isso é uma coisa crítica. É questão de tempo”, alertou.
Para o cantor, festivais como o Fica são essenciais justamente por essa interseção entre arte e consciência:
“Todo chamamento que puder ser feito para convocar as pessoas, nem que seja a pensarem, refletirem sobre o tema, já é bem-vindo. E aliar isso com a cultura, no caso, um festival de cinema e vídeo voltado para a questão ambiental, você faz desse alerta uma coisa mais lúdica”.
UMA NOVA ERA DE TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS
Zeca também fez paralelos entre o momento atual e outros ciclos históricos marcados por grandes transformações.
“Acho que a gente vive uma nova década de 1960, um momento de mudança de uma era, passando para um novo patamar histórico”, refletiu.
Para ele, debater temas como sustentabilidade, política e identidade em espaços culturais pode ser um caminho de convergência.
“Se a gente puder fazer isso num ambiente de cultura, de arte, melhor ainda, porque você atrai pessoas que, a priori, talvez não tivessem interesse naquilo”, completou.
FICA 2025: CULTURA, CINEMA E DIÁLOGO AMBIENTAL
Considerado o maior festival audiovisual de temática ambiental da América Latina, o Fica 2025 reúne um rico mosaico de experiências: mostras competitivas de cinema, oficinas, shows, atividades infantis e rodas de debate com nomes de peso do cenário nacional e internacional.
Entre os destaques da edição deste ano estão o ambientalista e líder indígena Aílton Krenak, além dos cineastas João Moreira Salles e Vincent Carelli.
UMA PAIXÃO ANTIGA PELO CINEMA
Zeca Baleiro também aproveitou para falar de uma de suas grandes paixões: o cinema. Para ele, ir à sala escura ainda é um ritual quase sagrado.
“Para mim, é como ir à missa. Aí fecha a luz, vem o trailer, tudo silencia. Acho bacana, um ritual que a gente não pode perder”, contou.
Mesmo reconhecendo a importância dos streamings, como a Netflix, o cantor lamenta que eles tenham afastado parte do público da experiência coletiva das salas de cinema. Ainda assim, se diz otimista com a retomada do interesse pelo cinema nacional.
Sua relação com a sétima arte vai além da cadeira de espectador: Zeca também compõe trilhas para teatro e cinema — como no recente documentário sobre os indígenas da etnia Krahô, baseado na obra do indigenista Fernando Schiavini.
OS DESAFIOS DO MERCADO MUSICAL NO SÉCULO 21
Ao comentar sua trajetória de quase três décadas, Zeca abordou as mudanças estruturais no mercado fonográfico com a chegada das plataformas digitais.
“Hoje é muito difícil você divulgar as coisas mais recentes, porque há uma pulverização muito grande com as plataformas digitais e são muitos lançamentos diários”, explicou.
E para quem está começando, os desafios são ainda maiores:
“Eu conheço vários artistas novos talentosos que têm muita dificuldade em pensar uma carreira a longo prazo. A minha geração ainda conseguiu isso porque pegou um restinho do mercado fonográfico tradicional”, disse.
Mas também vê vantagens:
“É muito simples uma pessoa em Goiás ou interior de Pernambuco gravar um troço e botar na internet. […] Ele tem essa liberdade. Não há uma curadoria, um rigor. Então, há coisas que avançaram, há coisas que melhoraram, há coisas que pioraram”.
UM LIVRO DE MEMÓRIAS A CAMINHO
Em 2026, ano em que completa 60 anos, Zeca Baleiro planeja lançar um livro de memórias, reunindo histórias, bastidores e reflexões sobre o cenário musical brasileiro — e tudo o que viveu até aqui.
Com sua sensibilidade de cronista, sua veia poética e sua visão crítica sobre o mundo, é de se esperar que venha algo à altura do artista múltiplo que ele sempre foi.
Fonte: Agência Brasil