Você já imaginou o mundo de cabeça para baixo? E se, na verdade, essa perspectiva invertida revelasse uma nova forma de enxergar o planeta — e o papel do Brasil nele? Foi exatamente esse convite à reflexão que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) lançou ao apresentar seu novo mapa-múndi invertido, com o Sul no topo e o Brasil no centro da imagem.
Sim, você leu certo: o Sul agora está acima. E não, isso não é um erro — é uma escolha política, simbólica e cartográfica.
UM MAPA, MUITAS CONVERSAS: REPRESENTAÇÃO GEOGRÁFICA COMO ATO POLÍTICO
O lançamento do novo mapa chega em um momento emblemático. Em 2024, o Brasil assumiu o protagonismo em diversas arenas globais: lidera o Brics, preside o Mercosul e se prepara para sediar a COP30, em Belém, no coração da Amazônia. Neste cenário, a atualização da representação mundial pelo IBGE é mais do que estética — é uma afirmação de identidade e visão de futuro.
A nova cartografia destaca, além do Brasil no centro e o Sul no topo, as nações que compõem o Brics, os países de língua portuguesa, o bioma amazônico, e importantes cidades brasileiras que serão palco de eventos internacionais: Rio de Janeiro como capital do Brics, Belém como sede da COP30, e Fortaleza, que em junho abrigará o Triplo Fórum Internacional da Governança do Sul Global.
UM MUNDO DE CABEÇA PRA BAIXO — OU FINALMENTE DE PÉ?
Segundo Maria do Carmo Dias Bueno, diretora de Geociências do IBGE, a inversão é proposital:
“Afinal de contas, o apontamento dos pontos cardeais é uma convenção cartográfica e não se constitui em um erro técnico. Alguns estudiosos apontam essa convenção norte-sul como tendo alguns vieses”.
Para ela, ao vermos o Norte no topo e o Sul abaixo, atribuímos inconscientemente valores positivos ao que está acima e negativos ao que está embaixo. Essa inversão, portanto, questiona as hierarquias visuais e simbólicas consolidadas — e, mais profundamente, o viés colonial dessas escolhas.
GEOGRAFIA É DISPUTA: QUEM DEFINE O CENTRO DO MUNDO?
O professor Luis Henrique Leandro Ribeiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), reforça que mapas são construções sociais:
“Mapas são convenções validadas por sociedades científicas, instituições de ensino, órgãos públicos. São expressões de visões de mundo e projetos. Esse novo mapa-múndi rompe com perspectivas universalizantes e dominantes, descentralizando a Europa e recolocando o Brasil como protagonista”.
E ele não está sozinho nessa análise. Para o cartógrafo Rafael Sânzio Araújo dos Anjos, da UnB, esse tipo de representação já é discutido há pelo menos duas décadas:
“Em 2007, publiquei este mesmo mapa invertido com o Brasil ao centro. O IBGE chegou depois, mas ao oficializar a proposta, promove um gesto de autoestima nacional. É uma forma de dar voz ao Sul Global”.
O PODER DOS MAPAS: MUITO ALÉM DA GEOGRAFIA
A escolha da projeção cartográfica também é estratégica. O IBGE adotou a projeção ECKERT III, idealizada por Max Eckert-Greifendorff em 1906, que oferece uma visão mais equilibrada do planeta, ainda que — como toda projeção plana — apresente distorções inevitáveis.
João Pedro Pereira Caetano de Lima e Carolina Russo Simon, da Associação de Geógrafas e Geógrafos Brasileiros, contextualizam:
“O novo mapa centraliza a América Latina para destacar um posicionamento político de liderança. É uma inspiração na obra ‘América Invertida’, de Joaquin Torres García (1943), que propôs um mundo pensado desde o Sul, como também defendeu Paulo Freire”.
Mas será que todos recebem bem essa nova imagem do mundo?
Os pesquisadores ponderam que mudanças assim geram desconforto. Afinal, a maioria de nós cresceu com mapas eurocêntricos, baseados nas projeções de Mercator (1569) e Robinson (1963), usadas até hoje em livros escolares.
“Essas representações refletem interesses hegemônicos e foram construídas para servir à dominação. Um mapa como o do IBGE questiona esse paradigma, e por isso pode gerar resistência”, avaliam.
UMA NOVA GEOGRAFIA PARA UM NOVO BRASIL
O professor Leandro Andrei Beser, também da Uerj, acrescenta:
“Mapas são meios de comunicação, carregam visões de mundo. O mapa tradicional, com Europa no centro, servia à expansão marítima e à lógica colonial. Este novo modelo quebra essa visão e traz à tona países e povos antes marginalizados”.
Na prática, esse gesto de “sulear” o mundo pode parecer simples — mas carrega um peso simbólico enorme. Não se trata apenas de virar um desenho de cabeça para baixo. Trata-se de dar novas coordenadas à nossa forma de estar no mundo. Trata-se de reimaginar o lugar do Brasil não como periferia, mas como centro ativo em debates globais.
E como lembra o geógrafo Milton Santos, citado por Ribeiro:
“Cada lugar é o mundo à sua maneira”.
DESAFIOS À VISTA: EDUCAÇÃO, CULTURA E CONSCIÊNCIA CARTOGRÁFICA
É claro que mudar paradigmas exige tempo, didática e persistência. João Pedro e Carolina destacam que, embora o mapa incentive novas reflexões, há barreiras cognitivas:
“Estamos acostumados com a Europa no centro e o Norte para cima. Essa inversão pode causar estranhamento e resistência — e não só entre leigos. Mapas são ferramentas dotadas de poder, capazes de (re)escrever ordens mundiais”.
Por isso, dizem eles, o gesto do IBGE é também pedagógico: propõe um novo olhar, desafia o senso comum e afirma o Brasil como ator global.
UM MUNDO COM MAIS DE UM CENTRO
Então, da próxima vez que você olhar para um mapa, que tal perguntar: quem escolheu essa representação?
Por que o Norte está em cima? Por que a Europa no centro?
Talvez o novo mapa do IBGE não apenas mude o que vemos — mas, principalmente, como pensamos.
Confira o mapa e mais informações no site oficial do IBGE: https://www.ibge.gov.br