Imagine uma criança em situação de vulnerabilidade sendo recebida por um lar temporário, onde afeto, estabilidade e dignidade não são promessas — são realidade. Esse é o papel das famílias acolhedoras, um serviço ainda pouco conhecido no Brasil, mas que pode ser decisivo para o futuro de milhares de meninos e meninas.
Apesar de previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e reconhecido como prioridade, o acolhimento familiar representa apenas 6,2% dos casos de crianças afastadas de seus lares por decisão judicial ou ação do Conselho Tutelar. Isso equivale a 2.124 jovens, entre os 34.427 acolhidos no país, segundo dados da Secretaria Nacional de Assistência Social (SNAS) de 2025.
O QUE É, AFINAL, O ACOLHIMENTO FAMILIAR?
Diferente da adoção, o acolhimento familiar é uma medida temporária. Funciona assim: quando uma criança ou adolescente precisa ser afastado do convívio familiar por razões como violência, negligência ou abandono, ela pode ser acolhida por uma família previamente cadastrada e treinada. Essas famílias oferecem cuidado, rotina e segurança enquanto o Judiciário busca reintegrá-la à família de origem ou encaminhá-la para adoção, caso necessário.
Segundo Renata Gil, conselheira do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), “não é uma adoção, então não implica assumir todos os poderes e deveres familiares, mas traz uma dose de comprometimento com a infância, com a vida dessa criança que pode fazer com que ela se torne um adulto saudável”.
SERVIÇO EXISTE HÁ ANOS, MAS AINDA ENFRENTA DESCONHECIMENTO
O Brasil possui 153 programas ativos de acolhimento familiar. Em 2013, apenas 23 novas famílias se cadastraram. Em 2024, esse número saltou para 1.098, totalizando 3.649 famílias com cadastro ativo. Apesar do crescimento, a meta — que prevê que 25% das crianças acolhidas estejam em lares temporários até 2027 — ainda está distante.
Você já tinha ouvido falar nesse serviço? A maioria das pessoas, não. E é justamente por isso que o Dia Mundial do Acolhimento Familiar, celebrado em 31 de maio, é tão importante: é uma chance de colocar luz sobre uma política pública que pode mudar destinos.
RIO DE JANEIRO É REFERÊNCIA EM ACOLHIMENTO FAMILIAR
Entre os destaques nacionais está o município do Rio de Janeiro, que já atingiu a meta nacional: um quarto das crianças acolhidas está com famílias. A coordenadora do serviço na cidade, Flávia Medeiros, explica: “A preferência pelo acolhimento familiar acontece justamente por conta da possibilidade de cuidado individualizado. Ao invés de estar num ambiente coletivo, essa criança vai estar em uma casa”.
E isso faz diferença, inclusive na autoestima. “Na escola, ao invés de dizer que mora num abrigo, ela diz que mora numa casa. Tem onde levar os amigos. Tem um lar.”
QUANDO ACOLHER É MISSÃO DE VIDA
Andreia Amaral, de 53 anos, conhece bem esse universo. Desde 2006, já acolheu 122 crianças e adolescentes. Descobriu o programa por acaso, assistindo a uma reportagem, e nunca mais parou.
“O que eu posso dizer é que é uma coisa muito prazerosa de se fazer. Muito mesmo. E eu não me vejo sem fazer isso”, diz ela, que acabou contagiando familiares e amigas com seu exemplo.
Entre os vínculos criados por Andreia está Maravilha Sebastião, jovem angolana de 19 anos que hoje estuda engenharia na UFRJ. Chegou sozinha ao Brasil aos 16 anos, sem recursos. Encontrou em Andreia o porto seguro de que precisava.
“O programa é muito importante para um adolescente ou para uma criança, quando não pode ficar com a família de origem. O abrigo não é um mar de rosas. A família acolhedora se torna um ponto de segurança, de referência”, afirma Maravilha.
ACOLHIMENTO É UM PROJETO DE FAMÍLIA
Para Alessandra Queiroz, advogada de 50 anos, a experiência também envolve toda a casa. Ela, o marido e o filho participam do serviço desde 2021. “Hoje eu olho para ele e vejo uma criança mais generosa, mais amorosa, companheira. A experiência nos transforma”, afirma.
Após acolher uma criança de 10 anos, atualmente cuidam de um bebê de menos de 1 ano. “A gente cria vínculo, a gente se apega, mas ao mesmo tempo se desapega. Porque o principal personagem é a criança.”
COMO SE TORNAR UMA FAMÍLIA ACOLHEDORA?
O processo começa no município. No Rio de Janeiro, por exemplo, é possível fazer o pré-cadastro pela internet ou nas Coordenadorias de Assistência Social (CAS).
A secretária municipal de Assistência Social, Martha Rocha, reforça: “É muito importante que a gente aumente o banco de cadastrados. O cadastro é simples e qualquer configuração de família é aceita, inclusive adultos solteiros”.
Quer dar o primeiro passo? Acesse o site da prefeitura da sua cidade ou procure o serviço de assistência social local.
CADASTRO NACIONAL PROMETE AMPLIAR ADESÃO
Com o objetivo de dar visibilidade nacional ao serviço, o Cadastro de Famílias Acolhedoras passará a integrar o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA) ainda este semestre. A novidade foi anunciada pela conselheira Renata Gil, que destaca:
“A nossa ideia é que as pessoas possam, dentro do Sistema Nacional de Adoção, também solicitar, em um ícone separado, o acolhimento familiar.”
INVESTIR NA PRIMEIRA INFÂNCIA É CONSTRUIR UM FUTURO MAIS JUSTO
A urgência da pauta é clara. “As crianças e adolescentes abandonadas agora serão as crianças que afetivamente serão adultos com problemas. Então, uma sociedade que preza pela dignidade do ser humano tem que ter atenção para suas crianças”, finaliza Renata Gil.
Famílias acolhedoras não substituem lares — elas restauram vidas. E talvez o Brasil precise mesmo é disso: de mais lares temporários para garantir futuros permanentes.
Fonte: Agência Brasil