Era uma terça-feira qualquer — ou pelo menos parecia. Cinco anos atrás, a pernambucana I.F., então com 37 anos, acordou, foi até a cozinha… e abriu uma garrafa. Ainda era manhã. Não era a primeira vez. Mas, naquele dia, algo mudou. Ao assistir a uma reportagem sobre os Alcoólicos Anônimos (AA), sentiu-se profundamente tocada pelas histórias ali narradas. O que ela viu foi um espelho de sua própria vida — marcada por uma separação recente e um consumo de álcool que, aos poucos, tomava conta da rotina.
“Naquele dia, acordei e comecei a beber pela manhã. Eu estava passando por muitos problemas. Era pandemia”, lembra.
Foi o início de um novo capítulo. Pegou o número de contato, enviou uma mensagem, e recebeu o link de uma reunião virtual — exclusivamente para mulheres. Decidiu participar. E encontrou ali algo que mudaria tudo.
“Ouvi-las falar sobre aquelas questões, sem dúvida, foi o ponto-chave para eu ficar e querer essa recuperação dentro do Alcoólicos Anônimos”, revela.
Hoje, I.F. se dedica a ajudar outras mulheres em situação de vulnerabilidade, como ela mesma esteve. “Sirvo a mulheres que estão em situações de vulnerabilidade como eu estava”, diz com orgulho.
MULHERES GANHAM ESPAÇO DENTRO DO AA
Em 2025, os Alcoólicos Anônimos completam 90 anos de história. Criado em 1935 nos Estados Unidos, o grupo é sustentado pela partilha de experiências entre os próprios membros — de forma gratuita e anônima. Mas algo significativo mudou recentemente: a presença feminina nos encontros nunca foi tão alta.
Desde a pandemia, o número de reuniões exclusivamente femininas saltou 44,7%, segundo dados da própria Irmandade. Hoje, são aproximadamente 65 grupos voltados só para mulheres, funcionando tanto online quanto presencialmente e atendendo participantes de todo o Brasil.
A psicóloga Lívia Pires Guimarães, presidente da Junta de Serviços Gerais de Alcoólicos Anônimos do Brasil (JUNAAB), chama atenção para uma questão crítica: o alcoolismo entre mulheres ainda é, muitas vezes, silenciado.
“Quando é uma mulher, esse estigma aumenta e é carregado de adjetivos pejorativos. O ambiente em que a mulher costuma beber frequentemente é sua casa. Então, fica invisibilizado”, explica.
Segundo Lívia, o avanço das reuniões online durante a pandemia proporcionou a muitas mulheres o primeiro contato com o grupo, ajudando-as a encontrar um espaço seguro para compartilhar suas dores. “A partir do contato online, começaram a ir para o presencial também, ou permanecer nos dois. E aí o movimento começou a aumentar.”
TECNOLOGIA COMO PORTA DE ENTRADA PARA A SOBRIEDADE
Antes da pandemia, havia o desejo de promover reuniões virtuais no AA, mas preocupações com o anonimato — pilar fundamental da Irmandade — freavam o avanço. A crise sanitária acelerou o processo e mostrou que, sim, era possível.
As reuniões virtuais se tornaram um ponto de virada. Hoje, elas são organizadas pelos próprios membros, como reforça Lívia Guimarães: “Todas as ações são feitas por integrantes da irmandade. São eles que vão pensar, idealizar, trabalhar para acontecer e fazer”.
Essa autonomia coletiva é um dos segredos do sucesso da Irmandade há quase um século.
HISTÓRIAS QUE INSPIRAM: R.S. E O PRIMEIRO GOLE AOS SEIS ANOS
Algumas trajetórias parecem saídas de um roteiro de cinema — mas são reais. R.S., morador do Piauí, experimentou álcool pela primeira vez aos seis anos. Aos 28, após uma crise de abstinência, teve um momento de lucidez.
“Eu fui para a casa dele. Isso ocorreu em 22 de abril de 1992”, conta, referindo-se ao amigo que o acolheu e o levou até uma reunião do AA.
A data virou marco. Há mais de 33 anos em sobriedade, ele reconstruiu sua vida: casou, teve um filho, fez faculdade e pós-graduação. Um salto que começou com a coragem de pedir ajuda.
NATIVIDADE E PERDAS: O CAMINHO DE VOLTA DE NATALI
Natali, 67 anos, vive em São Paulo e conheceu o álcool ainda jovem. “O meu histórico com o alcoolismo começou com 13 anos quando perdi meu pai e comecei a trabalhar em uma metalúrgica”, conta.
A dependência evoluiu rápido. Aos 21, perdeu a noiva. Em 1999, com a vida em frangalhos, chegou ao AA. A decisão marcou uma guinada.
“Muda tudo depois que você conhece o caminho da sobriedade, evitando o primeiro gole. Você se descobre capaz de ser aquela pessoa que você sabe que é, mas o álcool não deixava.”
UM FUTURO MAIS LIVRE: O QUE OS PRÓXIMOS 90 ANOS PODEM TRAZER?
Se você ou alguém próximo está enfrentando dificuldades com o álcool, talvez a história de I.F. seja o empurrão que faltava. O primeiro passo pode ser silencioso, virtual — e transformador.
Afinal, quem disse que é preciso enfrentar isso sozinho?
Alcoólicos Anônimos está a uma mensagem de distância. Seja em um grupo misto ou feminino, presencial ou online, o importante é saber: existe ajuda, acolhimento e recuperação possível. Há espaço para você.
Para saber mais, acesse: www.aabr.org.br
Fonte: Agência Brasil