Junho é um mês de cores, de resistência e de lembrança. Desde a histórica Rebelião de Stonewall, em 1969, o mundo passou a dar novos passos na luta por igualdade de direitos da comunidade LGBTQIAPN+. No Brasil, essas batalhas seguem avançando — agora dentro do Congresso Nacional, onde uma série de projetos de lei busca garantir inclusão, proteção e dignidade.
Quais os principais avanços? O que está sendo discutido em Brasília? A seguir, veja os destaques e propostas em tramitação que podem transformar realidades.
SAÚDE MENTAL: FOCO EM PESSOAS TRANS E TRAVESTIS
Uma das vozes mais ativas no Parlamento pela causa LGBTQIAPN+, a deputada Erika Hilton (Psol-SP) propôs a criação da Política Nacional de Saúde Mental para Pessoas Trans e Travestis. A proposta contempla a implantação de ambulatórios com atendimento multidisciplinar em todas as capitais brasileiras.
Segundo Erika:
“Os principais fatores de risco, relacionados especificamente à saúde mental de pessoas trans e travestis brasileiras, incluem a discriminação sexual, […] mais intensa para indivíduos não-binários, que frequentemente enfrentam maior marginalização por não se encaixarem nas expectativas sociais tradicionais”.
A proposta está na Comissão de Direitos Humanos, sob relatoria da deputada Daiana Santos (PCdoB-RS).
ESTATUTO DA DIVERSIDADE DE GÊNERO: UM MARCO LEGISLATIVO
E se a diversidade tivesse um estatuto próprio, com diretrizes claras e direitos garantidos por lei? Essa é a proposta da deputada Daiana Santos, que visa criar o Estatuto da Diversidade de Gênero, inspirado no Estatuto da Igualdade Racial.
“Pretende contribuir para a resolução dos entraves que têm prejudicado a livre, aberta e bem informada discussão sobre identidade de gênero e orientação sexual na Câmara dos Deputados”, afirma a parlamentar.
Com 28 artigos, o texto aborda questões como:
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Direito à identidade e à alteração de gênero após os 18 anos;
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Direito à intimidade, à família, ao trabalho e à saúde;
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Inclusão da Política Nacional de Saúde Integral da População LGBTQIAPN+.
A proposta está atualmente na Comissão de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família, aguardando relator.
COTAS EM CONCURSOS E LICENÇAS FAMILIARES: AVANÇOS NA INCLUSÃO
Do papel para a prática: o projeto da deputada Denise Pessôa (PT-RS) propõe uma cota de 2% para travestis e transexuais em concursos públicos e seleções temporárias na administração pública. Caso não haja inscritos para a cota, a vaga volta ao regime de ampla concorrência.
“A reserva de vagas envia uma mensagem clara de que o Estado está comprometido em combater a discriminação”, defende Denise.
Além disso, o deputado Bacelar (PV-BA) apresentou um projeto de lei que prevê licença-maternidade e paternidade para casais homoafetivos em situações como adoção, guarda ou inseminação artificial. Embora a proposta limite o benefício a apenas um dos genitores, salvo quando uma das mães é biológica, jurisprudência recente do TRT-2 já garantiu o direito a ambas as mães em 2024.
PROJETOS NO SENADO: DIREITOS NOS SISTEMAS DE SAÚDE E PRISIONAL
Mesmo com menos proposições em andamento, o Senado também discute pautas importantes para a comunidade LGBTQIAPN+.
O senador Fabiano Contarato (PT-ES) propõe mudanças na Lei de Execução Penal para garantir que pessoas transexuais e travestis sejam tratadas com respeito à identidade de gênero em unidades prisionais. O projeto está com o senador Marcos Rogério (PL-RO), na Comissão de Direitos Humanos.
Outro projeto, de autoria do senador Alessandro Vieira (MDB-SE), estabelece o uso do nome social por pessoas trans na rede pública e privada de saúde. Contudo, a matéria segue travada na Comissão de Assuntos Sociais desde 2023.
UMA PAUTA EM MOVIMENTO
A caminhada por direitos LGBTQIAPN+ no Brasil ainda enfrenta resistências, mas os debates em andamento no Congresso Nacional revelam um horizonte de avanços possíveis. Propostas como o Estatuto da Diversidade, políticas específicas de saúde e a reserva de vagas sinalizam um novo tempo de reconhecimento e equidade.
Afinal, o que seria do Brasil sem a força, a criatividade e a coragem da comunidade LGBTQIAPN+?
Fonte: Congresso em Foco